Direita fica mais forte no Congresso
Análise de Neuriberg Dias, analista político, consultor de Relações Institucionais e Governamentais e Diretor de Documentação do Diap. Seu artigo mostra o desempenho dos partidos e como ficará a correlação de forças no próximo Congresso Nacional. A composição é ruim para os trabalhadores e ficará ainda pior caso Flávio Bolsonaro se eleja Presidente.
O texto:
“A votação no primeiro turno de 2026 já deixou um recado contundente e inesperado para os dois principais campos políticos em disputa no país – bolsonaristas e lulistas. A depender do desfecho do segundo turno, porém, indica uma mudança profunda de agenda e na condução do País.
A positiva foi recebida pelo campo da direita, em particular, o bolsonarista, com a virada do candidato Flávio Bolsonaro (PL), ainda no primeiro turno das eleições presidências, com 47% dos votos válidos contra 45% do presidente Lula, quando as pesquisas em média davam como certa a liderança de Lula e até vitória ainda no primeiro turno segundo alguns institutos.
O campo da direita saiu bem nas eleições estaduais: foram cinco governadores eleitos pelo partido na região Sul – no Paraná, Sergio Moro; em Santa Catarina, Jorginho Mello; e no Rio Grande do Sul, Luciano Zucco. E, na Norte, foram eleitos Marcos Rogério, em Rondônia; e Arthur Henrique, em Roraima.
A direita avançou nas assembleias, em particular, no Legislativo federal, com o PL à frente desse grupo ideológico, com 121 deputados federais e 29 senadores. Os resultados não se traduzem apenas numa vitória política no primeiro turno. Revelam uma institucionalização, em particular, no Senado que poderá eleger com folga um novo presidente da Casa.
A negativa veio ao campo lulista que vai ao segundo turno com o desafio da reeleição do presidente Lula, num ambiente desfavorável: reduzir a distância de 1,87%, em relação a Flavio Bolsonaro, e conquistar votos dos candidatos dos demais presidenciáveis e do eleitorado que votou em branco, nulo ou abstenção que representou 25,85%. Nos cenários avaliados pela própria equipe, Lula precisaria de repetir os 60.345.999 obtidos na eleição de 2022.
A história mostra que o candidato à reeleição tem vantagens para diminuir essa distância como ocorreu com Bolsonaro em 2022, mas nunca um candidato que venceu no primeiro turno acabou derrotado no segundo turno do pleito presidencial.
Nas eleições estaduais, o PT elegeu três governadores na região Nordeste: Ceará, Elmano de Freitas; Piauí, Rafael Fonteles; e Bahia, Jerônimo Rodrigues, podendo conquistar ainda no Rio Grande do Norte. E, nos Legislativos o partido manteve suas bancadas nas Assembleias e na Câmara e Senado, com ligeiro acréscimo nas Casas do Congresso.
Na eleição de deputados federais e senadores, o partido e a federação do Presidente cresceram um pouco em relação à composição atual do Congresso. O PT/PCdoB/PV elegeu 88 deputados na Câmara e 10 senadores. Mas a ala de sustentação democrática de centro e centro-direita ao governo perdeu espaço no Parlamento, bem como nacionalmente.
Esse redesenho das forças políticas em âmbito nacional e, particularmente, federal, reforça que ambos os candidatos à presidência da República vão necessitar compor com os partidos no Congresso para formar maioria e fazer mudanças constitucionais que exigem 308 e 49 votos, na Câmara e Senado, respectivamente.
No caso do PL, com 121 deputados e 29 senadores e do PT com 88 deputados e 10 senadores, o bolsonarismo saiu das urnas com capacidade de formar uma maioria consistente e ideológica com maior influência no Congresso a partir de fevereiro, mas ainda está longe de lhe assegurar maioria para fazer o que bem entender. O Centrão, portanto, não perdeu sua conhecida condição de fiel da balança, mas tende a abraçar com mais facilidade parte da agenda. Esses partidos juntos ainda detêm 252 deputados federais e 35 senadores.
Diferentemente, da expectativa criada de domínio da direita no Parlamento, na verdade teve na Câmara e Senado uma baixa renovação histórica de 41% da Casa, menor histórica desde 1990. Em 2022, foi de 44,24% e 2018 de 52,43%. E no Senado uma renovação de 74% das vagas, porém menor à registrada em 2018, quando foi de 82,15%. Mas o que houve foi uma reorganização ideológica na composição das Casa mais à direita e reduzindo o centrão, em especial, PP/Uniao. O aumento de 22 deputados e de 13 senadores do PL veio desses partidos a direita ou centro tradicional como o próprio PP/Uniao, Republicanos, PSDB/Cidadania, MDB e PSD.
A distribuição a partir do perfil ideológico dos partidos ajuda a compreender as condições de governabilidade mais favoráveis para Flávio: na Câmara, a direita saiu de 244 para 260 deputados; a centro-direita de 94 para 81; o centro 50 para 48; a centro-esquerda de 27 para 21; e a esquerda de 98 para 103; no Senado: a direita de 32 para 48; a centro-direita de 21 para 8; o centro de 9 para 8; a centro-esquerda de 8 para 5; e a esquerda de 9 para 11.
No geral, o resultado do primeiro turno permite dizer que a direita liderada pelo bolsonarismo saiu em condições mais favoráveis, qualquer que seja o Presidente eleito, mesmo ainda num País dividido e polarizado. E muito simbólica em caso de uma derrota definitiva do presidente Lula, um dos maiores líderes do País, de reduzir o tamanho do Centrão e eleger mais governadores. E uma demonstração de reorganização e renovação após 2022 e a prisão de Jair Bolsonaro”.
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