Lula tá certo
(João Batista Franzin)
Atribui-se ao brasileiro memória curta. Ainda que sim, quem não tem esse direito é o movimento sindical. Digo porque, na abertura da II Conferência Nacional do Trabalho, o Presidente Lula foi criticado por dizer que o fim da escala 6×1 é ponto de chegada e não de partida. Lembrou ainda que as categorias são díspares, possuem composição diferentes, e que, por isso, a discussão sobre o fim dessa escala tende a depender de negociações bilaterais ou trilaterais.
Será que o sindicalismo se esqueceu dos (recentes) anos Temer e Bolsonaro? Das agressões contra o movimento e a classe trabalhadora? Da deliberada opção pelo capital? Da reforma trabalhista draconiana? Da reforma previdenciária desumana? Do congelamento da política que permitiu, nos anos Lula e Dilma, aumentar em quase 70% o salário mínimo? Que a primeira medida oficial do governo Bolsonaro foi extinguir o Ministério do Trabalho?
Tais dirigentes, vários deles fracos de ação na base, mas fortes no discurso, são esquecidos, são néscios, são cínicos? Eles não olham pra uma Argentina radicalmente neoliberal, e seus estragos? Não consideram que um eventual Bolsonaro II nos faria uma argentina continental?
A classe trabalhadora, se bem dirigida, avança à base de ganhos cumulativos, degrau por degrau. Até a Constituição de 1988, a jornada era de 48 horas. Na Constituição, conseguimos reduzir pra 44 horas. Isso dá, no mínimo, 16 horas a menos mensais, o equivalente a um ganho de dois dias. Num ano, de 24 a 26 dias. Não é muito, mas também não é pouco.
Os sindicalistas marrentos deveriam ler as Convenções Coletivas de suas categorias. Iriam verificar que ganhos acima da CLT, nos adicionais de horas extras, no adicional noturno, no pagamento em dobro (ou triplo) dois domingos e feriados trabalhados, na licença a acidentados etc., foram obtidos em negociações coletivas que eles mesmos assinaram.
Bem, então por que não mobilizar as bases, fazer grandes assembleias, realizar greves da categoria – pra conquistar mais e fazer o patrão beijar a lona? Porque, senhores e senhoras, o próprio trabalhador não mostra essa disposição, avalia que não vale a pena bater de frente com a empresa. Ou, quem sabe, porque movimento não tenha mais líderes fortes.
As cúpulas sindicais, de um modo geral, envelheceram e os jovens trabalhadores não têm consciência de classe. Nessa conjuntura, o patronato, a mídia, a teologia de prosperidade e a narrativa de direita são hegemônicas. Ou seja, a correlação de forças não favorece o trabalho.
Certos segmentos sindicais querem benesses caindo do céu (do Palácio do Planalto). Na verdade, tais dirigentes (não escrevo lideranças) deveriam fazer o que Lula faz: acordar cedo, trabalhar muito, dialogar com todo mundo, negociar exaustivamente, aceitar críticas, ir dormir tarde pra no outro dia recomeçar cedo tudo outra vez.
Portanto, Lula está certo.
– Jornalista da Agência Sindical
Telefones (11) 3159.1961 ou 99617.3253.




