Novembro de 1985. Estávamos em Bauru no primeiro encontro de Secretários da Saúde do Estado. Ali, conheci o jovem metalúrgico Carlos Aparício Clemente. Com sua voz metálica, ele encantoava os Secretários, quase sempre sem respostas, mas cheios de desculpas.
No final da tarde, fomos avisados que a têxtil Toyobo (multi japonesa) ia entrar em greve, em Americana (SP). Metemos o pé de volta a tempo de chegar antes do turno das 22 horas. A delegação do Sindicato dos Borracheiros voltou em peso. Organizamos o piquete, erguemos barraca, distribuímos tarefas e demos ordem pra ninguém beber bebida alcoólica.
A paralisação durou cinco dias e conquistou 20% acima do acordo coletivo negociado pela Federação. Uma unidade da fábrica, perto da matriz, empregava quase só garotas, menores. Numa tarde, nos chamaram pra negociar na Associação Comercial, no Centro. Era cilada. Sem comando da greve, a PM meteu a borracha em todo mundo, até em grávidas.
Registro que o excelente jornal O Liberal apoiou nossa greve. Mas até hoje penso que a cilada foi armada pelo advogado do Sindicato, um invertebrado, puxa-saco de patrão.
A vitória na Toyobo reergueu o prestígio do Sindicato e logo depois, em outras fábricas, grandes ou pequenas, trabalhadores e trabalhadoras cruzaram os braços. No total, dez greves. Na manchete do jornal do Sindicato, parodiei John Reed: “As 10 greves que abalaram Americana”.
PS: Não tínhamos carro de som e nas assembleias da greve utilizávamos megafones. É ruim ter poucas armas numa luta daquele porte. Mas não nos faltava o principal: razão.
(Aqui registro e homenageio Hermine Demer, Antonio Dirceu de Leão e Maria Inês da Silva).
João Franzin. Jornalista da Agência Sindical.









