29 C
São Paulo
quinta-feira, 26/03/2026

Kim e o diabo – João Franzin

Data:

Compartilhe:

Meu pai, humilde lavrador, alertava: – O diabo ensina fazer o caldeirão, mas não ensina fazer a tampa.

Ou seja, a pessoa abarrota o caldeirão e põe pra cozinhar. Porém, quando os ingredientes fervem e a pessoa procura tampar percebe que falta a peça. O diabo não ensinou como fazer a tampa!

O deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) inventou um caldeirão, ou seja, emenda a Projeto de Lei, pela qual visa extinguir lei vigente desde o ano 2000, que proíbe o selfie-service nos 45 mil postos de combustíveis do País.

Ao fabricar seu caldeirão tosco, o deputado não levou em conta que o autosserviço pode mandar pro olho da rua mais de 400 mil trabalhadores. Tampouco que as pequenas empresas podem quebrar, porque não teriam meios pra comprar as bombas modernas, quitar o passivo trabalhista de todos os demitidos ou mesmo adaptar as instalações do posto pra um novo padrão de abastecimento.

De janeiro a setembro, deveria saber o desavisado parlamentar, o Estado de São Paulo registrou 5.093 ocorrências em postos de combustíveis – fora as intercorrências que foram deixadas de lado e, portanto, não constam nos B.Os. da Secretaria de Segurança Pública.

A internet e as redes de TV estão repletas de filmagens de assaltos e agressões em postos. A saber: Roubo (Artigo 157): 18,36%; Furto (Artigo 155), 15,49%; Furto qualificado (Artigo 155, parágrafo 4º), 4,65%; Lesão corporal (Artigo 129), 3,43%.

Tudo isso ocorreu mesmo ante a presença do frentista. Imagine um posto deserto, numa beira de estrada, em local ermo ou numa zona perigosa. O ladrão vai ficar de camarote à espera da vítima, fazer a abordagem e praticar o roubo assim que ela estiver com a mão na bomba, sem qualquer meio de reagir.

Flagrado com seu caldeirão do diabo fumegante, mas destampado, o deputado mudou de tática e apresentou emenda que propõe transição de cinco anos. Provavelmente, Kim não conhece um posto nem perceba que o setor – do visual, serviços, à modernização de equipamentos – passa por mudanças continuadas e melhorias constantes.

O deputado alega que o preço final, sem o frentista, cairá.

Não é verdade: o Dieese mostra que o salário do frentista varia de 1,72% a 1,80% do valor cobrado na bomba. E mais: ao facilitar a verticalização, permitindo que o distribuidor também venda gasolina, álcool e diesel, haverá cartelização do setor. Desde quando cartel baixa preço de alguma coisa?

Kim Kataguiri costuma se dizer democrata.

Mas, fique claro, para apresentar emenda que desemprega 400 mil e quebra pequenas empresas, ele não ouviu as representações de trabalhadores ou de patrões.

Sua emenda, diabólica, será derrotada.

Clique aqui e leia mais artigos de João Franzin.

Conteúdo Relacionado

Sinpro-SP explica a Assistencial

Aprovada de forma democrática nas assembleias dos diversos segmentos da categoria (Sesi, Senai, Senac, Educação Infantil, Educação Básica e Ensino Superior), a Contribuição Assistencial...

Justiça a Fiel Filho

A ditadura no Brasil (1964-1985), autoritária, criminosa, estúpida e sanguinária, perseguiu muitos trabalhadores.Entre suas vítimas está o metalúrgico e militante Manoel Fiel Filho. Trabalhador...

CNTC defende debate sério quanto ao fim da 6×1

A Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e as entidades sindicais comerciárias e de serviços em todo o País manifestam repúdio às declarações do...

Acabar com a Justiça do Trabalho?

As pessoas que leram a versão impressa do Estadinho de segunda-feira (16/03) ficaram surpresas e alarmadas com a manchete: “Empresas pagam recorde de R$...

Ciclo positivo

O cidadão tem o justo direito de reclamar do mau gestor, seja o prefeito, o governador ou o presidente da República. O movimento sindical...