Para nós, na América Latina, explorados e oprimidos pelo imperialismo norte-americano, não havia dúvida. Era uma corrente moderada de esquerda. Era o getulismo e o peronismo.
Sabíamos do fascismo, embora sem destaque para o seu nacionalismo. Na Europa, que não sofria a dominação e a exploração do imperialismo os EUA, o nacionalismo era o de Hitler e de Mussolini, de extrema direita.
Era a concepção da superioridade da raça branca sobre as outras. A repressão aos judeus e aos comunistas. Na Europa, que era uma referência fundamental para a esquerda latino-americana, o nacionalismo era então de direita. Para nós, de esquerda.
Essa sempre foi a diferença da Europa para a América Latina. Lá, a referência central era a União Soviética, louvada pelos partidos comunistas e execrada por correntes mais radicais da esquerda, mas também pela social-democracia. Aqui, mesmo criticada pelo modelo soviético, pelo stalinismo, a União Soviética era aliada na oposição ao imperialismo norte-americano.
A esquerda europeia não entendia nossa posição em relação à União Soviética. Nós não entendíamos a posição deles em relação aos Estados Unidos.
Quando terminou a União Soviética, eles se decepcionaram, porque se deram conta de que os russos não buscavam um modelo mais democrático de socialismo, mas buscavam o consumo que o Ocidente exibia como tentação.
Posteriormente, na passagem de Gorbachev para Putin, a Rússia reivindicou vários aspectos da URSS, deixando os trotskistas e os próprios partidos comunistas meio desconcertados.
Hoje o nacionalismo dos Bricas é de esquerda, incluindo a esquerda latino-americana, a asiática e a africana, todas enfrentando os Estados Unidos. Como os Brics são a expressão neste século das forças progressistas, predomina o nacionalismo antimperialista, de esquerda.
A própria decadência da Europa e também da sua esquerda minimiza a dimensão de direita do nacionalismo, mesmo se o fascismo e o nazismo sobrevivem na própria Europa.
A importância maior da América Latina, como epicentro da luta contra o modelo contemporâneo do capitalismo – neoliberalismo – promove a imagem nacionalista como força de esquerda.
A reivindicação que Lula faz atualmente de Getúlio Vargas e a atualidade do peronismo fortalecem a imagem de esquerda do nacionalismo no século XXI.
Emir Sader – Um dos principais sociólogos e cientistas políticos do Brasil.









