Saúde mental – João Franzin

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Saúde mental

(por João Franzin)

Faz uns 20 anos, eu me tratava com um médico cardiologista e também homeopata. Falávamos de doenças típicas de algumas profissões, digamos, liberais.

O dr. Mauro me dizia que os médicos eram muito afetados pela “síndrome de burnout”, que, segundo ele, se tratava de uma doença progressiva: começava com uma espécie de cansaço, evoluindo pra irritação, desinteresse e, contava ele, mais grave, insensibilidade diante da dor e das queixas dos pacientes.

Domingo, a Folha de S.Paulo, com um certo alarde, traz o assunto em manchete, e dá lá suas explicações, com o claro viés fiscalista, ou seja, deve-se evitar a “explosão de auxílio-doença”, ou seja, gasto previdenciário.

Mas por que a tal doença cresce aceleradamente? Bem, o dr. João Franzin explica:

Trabalhador entra às 8 da manhã, mas tem que sair de casa às seis da madruga. Antes disso, um café ralo e corrida pro ponto de ônibus. Nem sempre dá pra subir no primeiro, que passa lotado. Imagine uma trabalhadora…

Na noite anterior, ela teve que deixar a comida pronta (pra ela, o marido, os filhos etc.). Acordou de madrugada. Tinha água pra tomar banho? Deu tempo da roupa secar no varal? E a geladeira: o que tinha pra improvisar um lanche? Ou seja, o burnout já começava ali.

A pessoa tem que pegar pelo menos duas conduções. Se for mulher, toma as tradicionais encoxadas dos marmanjos. Dentro do bus/metrô/trem, os celulares tocam música alto, infernizando a vida de quem terá um dia inteiro de trabalho pela frente. E, depois, na volta, o mesmo filme de terror.

A sequência do transporte para os pobres/desvalidos foi essa: durante séculos, navio negreiro lotado e imundo; nos períodos de migração em massa (seca no Nordeste etc.) caminhão pau-de-arara (também navio negreiro); agora, com a modernidade, metrô/trem (também outras formas de navio negreiro).

A cada dia as pessoas tomam mais remédio (três, quatro, cinco), sobrecarregando fígado e rim e fazendo um rombo no orçamento. Remédios que nunca curam; só dão um sopro na ferida.

Aí vêm os sabichões, e folgados, dizendo que a produtividade no Brasil é baixa. Caramba! Como produzir mais, e melhor, sob essas condições?!

Não é a toa hoje que 20 em cada 10 brasileiros querem o fim da escala 6×1 ou jornada menor ou mais folgas aos domingos (comerciários, frentistas, empregados em bares etc.). O fato é que ninguém aguenta mais esse regime de senzala. Perguntei a vários trabalhadores: – Teu patrão faz 6×1, trabalha aos domingos? A resposta foi sempre não.

Ora, é fácil ficar no conforto da casa-grande enquanto a senzala segura o rojão, queimando suas energias e perdendo qualidade de vida.

Agora, teorizemos um pouco. Esse regime de estafa não vem do nada. Ele vem de um modelo insano de produção. É o modelo capitalista. O mesmo que impôs 350 anos de escravidão no Brasil, num esquema que Darcy Ribeiro chamava de “máquina de moer gente nos engenhos fazendo açúcar pra adoçar boca de europeu”.

Portanto, o burnout de que trata a Folha é só a ponta do fio da meada. Sou microempresário, procuro de todas as formas não sobrecarregar minha equipe. Porém, a margem de manobra dos pequenos (micros, no caso) é mínima.

Pergunto: – Por que devemos trabalhar tanto, por que devemos consumir quatro/cinco horas (no caso, da segunda a sexta) no transporte coletivo, pra que e para quem? Por que juiz tem férias duas vezes ao ano, por que deputado trabalha de terça a quinta? Esse sistema desumano precisa ser mudado ou derrubado.

João Franzin, jornalista da Agência Sindical.

E-mail: joaofranzin56@gmail.com

Telefone (11) 3159.1961.