Antônio Augusto de Queiroz (o Toninho do Diap) concedeu longa entrevista ao Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo. Com 27 minutos, a entrevista, conduzida pela jornalista Rita Casaro, pode ser vista no YouTube.
O entrevistado preside a consultoria Consillium. Toninho foi diretor do Diap por 35 anos. Ele faz um balanço positivo de 2025 e vê perspectivas de avanços para este ano.
Para o consultor, temas ligados ao desenvolvimento terão destaque na pauta de 2026. Ele diz: “Nosso País é a oitava economia do mundo, mas estamos na 51ª posição em matéria de infraestrutura. Por isso, confio que haverá muito investimento em ciência e tecnologia, na questão da soberania e na proteção de trabalho digno”.
O Brasil superou desafios como o combate à fome, à inflação e ao desemprego. Antônio Augusto de Queiroz vê nas eleições deste ano oportunidade para o debate de “questões transformadoras”, entre as quais o meio ambiente, o fortalecimento sindical e a regulação das big techs. Para Toninho, “em 2026 as entidades sindicais devem retomar o protagonismo no debate”.
O consultor também vislumbra espaço para a atuação relevante da Engenharia. Ele afirma: “Países que se desenvolveram é porque investiram. Ao contrário do Brasil, a China tem muito mais engenheiros que advogados. Portanto, investir na formação, atualizar a lei, valorizar a profissão são medidas que vão se impor naturalmente, especialmente neste mundo que vivencia uma revolução do ponto de vista tecnológico”.
LIVROS – Jornalista e autor de vários livros, entre os quais, “Para entender o funcionamento do governo e da máquina pública” e “Por dentro do processo decisório: como se fazem as leis”, ele destaca a importância das instituições e equilíbrio entre os Poderes. Esse aspecto, destaca, é essencial para que neste ano seja superado o “debate marcado por emoções e comportamentos que não levam à solução de problemas, mas apenas despertam ódio, ressentimento e divisão”.
A polarização, ele adverte, desvia atenção dos reais interesses nacionais. “Pressões jurídicas e políticas vão ser intensificadas especialmente contra a regulamentação de big techs e mirando nossas terras raras e minerais estratégicos. Há risco de forte interferência sobre a eleição de 2026 em favor de um candidato submisso aos interesses norte-americanos”, afirma.
BALANÇO DE 2025 – O governo Lula conseguiu manter a democracia, buscou reconstruir o aparelho de Estado, depois da tentativa de desmonte anterior, com concurso de novos Servidores e melhoria salarial, com a inauguração de vários programas sociais e fortalecimento de outros. Graças a isso, chegou-se ao final do ano com relativa tranquilidade, inflação sob controle, os juros ainda altos, mas com tendência de queda, e o emprego e a renda crescendo efetivamente. A isenção do Imposto de Renda para ganhos até R$ 5 mil foi uma das políticas mais importantes do governo. E há ainda a política de aumento real do salário mínimo.
SINDICALISMO – “Alguns temas ficaram para trás. O governo tinha o compromisso de rever o financiamento sindical. Essa CPMI do INSS criou um ambiente que, em lugar de avançar desse ponto de vista, significou retrocesso, na medida em que foram aprovados projetos impedindo o desconto em folha para entidades de aposentados. Então se criou um ambiente muito ruim para o financiamento sindical. O Supremo, em 2025, reiterou o direito à contribuição assistencial ou negocial, fixada em Assembleia, permitindo direito à oposição. Mas, por outro lado, definiu uma regra muito importante, que é o reconhecimento de que o empregador interferir para que o trabalhador se oponha caracteriza prática antissindical. Outro tema para o próximo mandato é a redução da jornada. Ou seja, a mudança da escala 6×1.
USA X VENEZUELA – Acho muito baixo o risco de intervenção militar no Brasil. O governo se vacinou quando impediu que naquele projeto antifacção (PL 5582/2025) se mencionasse qualquer coisa relacionada a terrorismo ou narcoterrorismo. Mas as pressões jurídicas e políticas vão ser intensificadas especialmente no sentido de não permitir a regulamentação de big techs e de buscar exploração de terras raras e minerais estratégicos. E enfraquecer a posição do Brasil perante os Brics. O objetivo é claramente geopolítico para fazer com que o Ocidente fique sob o domínio dos Estados Unidos. Então, acho que a pressão vai ser política e jurídica, e há risco de interferência para influenciar a eleição de 2026 em favor de um candidato submisso aos interesses norte-americanos e que não seja firme na defesa da soberania nacional.
EXPECTATIVAS QUANTO A 2026 – É um ano de consolidar as conquistas do mandato anterior e trabalhar um programa alternativo à postura anticivilizatória da extrema direita. É importante não apenas eleger o Presidente, mas uma grande bancada na Câmara e principalmente no Senado. Mas, pra isso, é preciso que os brasileiros tenham juízo e não retomem aquele projeto obscurantista de Temer e Bolsonaro, que estavam voltados à luta política e ao desmonte da indústria nacional e dos direitos sociais. Fugir dessa pauta polarizadora e centrar nos interesses do povo, com inclusão social, evitando esse ataque sistemático às instituições e à democracia. Acho que o governo também vai enfrentar fortemente a questão da segurança pública. E isso vai ser enfrentado como uma prioridade, combinando políticas públicas de proteção, integração, esclarecimento e de repressão. E o Brasil está avançando muito no combate à corrupção. O Supremo hoje tem um diagnóstico preciso do crime organizado no Brasil, que se nutre basicamente através de fintechs [empresas de tecnologia financeira] e que utiliza muito as redes sociais para disseminar suas ações. Por exemplo, as transações via fintechs agora terão que ter o mesmo tratamento dos bancos oficiais, o que permite identificar uma ramificação enorme de desvio de conduta, de crime organizado, inclusive via bets e outros mecanismos que não tinham sido ainda devidamente regulamentados.
DEMOCRATIZAR A COMUNICAÇÃO – O governo colocou Boulos na Secretaria-Geral da Presidência e vai promover um diálogo com a sociedade, com as comunidades, a respeito de vários temas, inclusive esse da democratização das comunicações. De modo que 2026 será um ano, assim penso, de transição para essas grandes transformações, especialmente de consciência política, de trazer o debate para as propostas; aquilo que orienta para a decisão em favor da população, e não um debate marcado por emoções e comportamentos que não solucionam problemas, mas apenas despertam campanha de ódio, de ressentimento e divisão.
DESENVOLVIMENTO E ENGENHARIA – Esse tema tem muita ênfase na agenda governamental. No Ministério do Planejamento, há um programa chamado “Estratégia Brasil 2050” – um planejamento de longo prazo em que a infraestrutura e o desenvolvimento estão no centro. O Conselhão trabalha com outra linha de atuação em mais curto prazo, que é o chamado “Pilares de um projeto de nação”, que também tem um foco muito forte no desenvolvimento sustentável e na retomada forte da infraestrutura. De modo que temos aí uma preocupação muito grande, o BNDES e todos os órgãos de fomento do governo foram retomados com muita força para restabelecer a engenharia nacional, que foi desmontada pela Lava Jato. Estou confiante de que haverá muito investimento em ciência e tecnologia, na questão da soberania, na proteção de trabalho digno e social, como também na questão da infraestrutura para assegurar desenvolvimento, logística a fim de que o Brasil possa escoar a sua produção.
VALORIZAR A PROFISSÃO – Eu acho que vai ser prioridade. Inclusive vem sendo discutida a ideia de uma Conferência Nacional da Engenharia para colocar em foco esse debate. Os países que se desenvolveram investiram enormemente em Engenharia. Acho que investir na formação de engenheiro, atualizar a lei, valorizar a profissão são medidas que vão se impor naturalmente, especialmente neste mundo em que está havendo uma revolução do ponto de vista tecnológico. O engenheiro tem relação direta com isso e é quem pode ajudar para que esse desenvolvimento seja sustentável e inclua a população brasileira.
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