Futuro do trabalho

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Eusébio Pinto Neto. Presidente da Federação Nacional dos Frentistas e do Sinpospetro-RJ.

Participei em São Paulo, entre 3 e 5 de março, da 2ª Conferência Nacional do Trabalho, evento histórico que reuniu mais de três mil delegados de todo o País para analisar 370 propostas oriundas das etapas estaduais. Realizada com apoio da OIT e acompanhada por observadores internacionais, a Conferência marcou a retomada do diálogo tripartite após 10 anos de hiato – avanço que se soma à isenção do IR pra quem ganha até R$ 5 mil e à volta da política de valorização do salário mínimo.

O Presidente Lula esteve presente e reforçou o apoio à nossa bandeira mais urgente: a redução da jornada sem corte de salários, com o fim da escala 6×1.

É uma evolução concreta, consolidada pela aprovação de 17 propostas na plenária final voltadas ao fortalecimento das relações de trabalho, da negociação coletiva e da segurança jurídica. Debatemos o “futuro do trabalho” sob uma perspectiva propositiva: a inovação e a inteligência artificial devem servir para libertar o trabalhador de tarefas exaustivas e gerar empregos qualificados – nunca pra aumentar a vigilância e a exploração.

Conforme destaca a declaração final do evento, assinada por todas as entidades, o Brasil se fortalece quando rompe barreiras pra construir propostas que contemplem competitividade, produtividade e justiça social.

A tecnologia que queremos a serviço do trabalhador não virá por geração espontânea. Precisamos regulá-la, organizar quem dela depende, formar quadros que entendam os algoritmos. Entre as medidas aprovadas, destacam-se a ampliação de políticas de qualificação profissional contínua e o fortalecimento do FAT e do FGTS como motores de desenvolvimento e geração de empregos.

O futuro do trabalho está também na escuta, no respeito e na capacidade de construir com quem hoje duvida de nós. A direita aprendeu a se comunicar de forma mais simples e ocupou espaço nas redes e em amplos setores sociais. Não é à toa que hoje temos um Congresso que não prioriza os interesses dos trabalhadores ou a superação das desigualdades em nosso País.

É preciso nos reconectar com o povo e desmascarar a hipocrisia de quem, falando em nacionalismo, coloca “acima de tudo e de todos” o projeto da ultradireita mundial. Para tanto, precisamos ir além do preconceito e entender que os trabalhadores que votam contra seus próprios interesses não são, necessariamente, massa de manobra. Em muitos casos há razões legítimas que precisamos entender para conseguir disputar seus corações e mentes. Também precisamos reconhecer que o movimento sindical errou ao burocratizar-se, afastar-se das bases e demorar a entender o mundo digital.

Parte desse distanciamento vem do fato de que, historicamente, dirigimos nosso discurso aos trabalhadores formais. Só que o mundo mudou. A quarta revolução industrial fez surgir uma multidão de desorganizados – motoristas de aplicativo, entregadores e intermitentes – que a extrema direita capturou com o discurso do empreendedorismo. Nós ainda não aprendemos a falar com eles. Essa é a raiz do nosso afastamento dos setores populares.

Modernizar o discurso não significa abandonar princípios, mas aprender a língua de quem vive na pele a precarização. A esquerda precisa ocupar as redes e simplificar suas mensagens pra disputar o voto de quem hoje nos rejeita – não por maldade, mas porque já não nos reconhece como porta-vozes de seus sonhos.

O futuro depende das escolhas que fazemos hoje. O voto consciente é nossa maior trincheira pra barrar retrocessos e garantir um Brasil desenvolvido, soberano, que busque superar as desigualdades e respeite seus trabalhadores.
A luta continua!

Eusébio Luís Pinto Neto – Presidente do Sinpospetro-RJ e da Federação Nacional dos Frentistas.