O erro estratégico de subestimar o bolsonarismo digital

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Ignorar ou subestimar Jair Bolsonaro e o bolsonarismo como forças políticas estruturada seria equívoco político gravíssimo. Mais ainda é subestimar o que pesquisadores do CCI/Cebrap (Center for Critical Imagination/Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)1 identificaram como “partido digital”.

Trata-se, pois, de “engrenagem paralela” que disputa poder à margem das formas tradicionais de organização partidária.

O relatório Hackeando partidos: como o bolsonarismo se tornou uma máquina digital de poder2 sustenta hipótese contundente: o bolsonarismo deixou de ser apenas movimento personalista para se tornar estrutura organizativa própria, que utiliza o PL (Partido Liberal) como base institucional, mas não se confunde com este.

E, antes que alguém suponha que o bolsonarismo se esgota com a eventual inviabilidade eleitoral de Bolsonaro, basta observar que Flávio e os demais herdeiros políticos — filhos e mulher3 — permanecem ativos, articulados e prontos para ocupar o espaço. Sinal de que o projeto vai além de um único nome.

Trata-se de algo mais sofisticado. E mais persistente.

O PL e o chamado PDB estabelecem relação de claro mutualismo, em que ambos se fortalecem reciprocamente.

O bolsonarismo precisa de legenda para disputar o poder institucional e acessar as engrenagens formais do sistema político. O PL se beneficia da força mobilizadora do bolsonarismo: amplia a base eleitoral, elege mais parlamentares, ganha projeção nacional e reforça os cofres com recursos dos fundos partidário e eleitoral.

Segundo a pesquisa, o chamado PDB (Partido Digital Bolsonarista) funciona como entidade paralela: mobiliza, articula narrativas, coordena estratégias e disputa eleições, ainda que não exista formalmente no sistema jurídico-eleitoral.

A equipe do CCI/Cebrap analisou o comportamento de 10 parlamentares do PL em momentos-chave do debate nacional, monitorou redes digitais, realizou pesquisa de campo e mapeou padrões de comunicação.

A conclusão preliminar é clara: há lógica organizativa que nasce no ambiente digital e opera com relativa autonomia.

Como afirma Ana Cláudia Chaves Teixeira, pesquisadora do CCI/Cebrap e professora da Unicamp, “o bolsonarismo não é apenas um grupo de apoio a um líder, mas uma forma organizativa nascida no ambiente digital, que hackeia o sistema partidário tradicional para a disputa política eleitoral”.

O verbo “hackear” não é metáfora gratuita. Descreve a capacidade de operar dentro das instituições enquanto constrói, simultaneamente, rede que contorna regulações formais, financiamento tradicional e mecanismos clássicos de controle partidário.

O PDB atua de maneira complementar e, por vezes, tensa com o PL. Beneficia-se da estrutura formal — tempo de TV, fundo partidário, registro eleitoral —, mas mantém dinâmica própria de mobilização, comunicação e fidelização de base.

Basta lembrar a chamada “marcha de Nikolas”, em janeiro, que não teve vínculo formal com o PL. Ainda assim, em pleno período de baixa intensidade no debate político, o episódio provocou grande repercussão, mobilizou a mídia tradicional e ativou a militância nas redes e nas ruas.

Por não ser formalizado, escapa a dispositivos legais que regulam partidos políticos. Ainda assim, possui agenda, identidade, liderança simbólica e capacidade de coordenação nacional.

Esse modelo desafia a arquitetura institucional construída após 1988. A legislação eleitoral pressupõe partidos identificáveis, com direção formal e financiamento rastreável. O “partido digital”, ao operar em rede e com forte centralidade nas plataformas digitais, altera essa equação.

O diferencial do bolsonarismo não está apenas na organização, mas na produção contínua de narrativa. O ambiente digital permite mobilização permanente; mesmo fora do calendário eleitoral.

Enquanto partidos tradicionais alternam ciclos de ativação e retração, o bolsonarismo mantém militância em estado constante de engajamento. Isso cria capital político resiliente, menos dependente de estruturas territoriais clássicas.

Subestimá-lo significa ignorar que sua força não se mede apenas por mandatos ou por pesquisas momentâneas, mas pela capilaridade digital e pela capacidade de moldar o debate público.

Há tentação recorrente na política brasileira: decretar o fim do bolsonarismo a cada derrota eleitoral ou revezes jurídicos. Essa leitura ignora que movimentos digitais não desaparecem com a perda de cargos. Adaptam-se.

A hipótese do “partido digital” sugere que estamos diante de transformação estrutural da política. Não se trata apenas de um líder carismático, mas de ecossistema organizado que opera dentro e fora das engrenagens institucionais.

Em 2026, essa engrenagem está ativíssima e totalmente operacional.

O relatório do CCI/Cebrap não é peça de militância; é um alerta analítico. Aponta que o sistema político tradicional pode estar enfrentando uma forma organizativa que desafia seus mecanismos de regulação.

A resposta democrática não pode ser negação ou desprezo. Precisa ser compreensão estratégica, atualização institucional e fortalecimento das regras de transparência.

Subestimar Bolsonaro, o bolsonarismo e o chamado PDB é erro político, analítico e estratégico. Não se enfrenta máquina digital com diagnósticos superficiais. A disputa contemporânea não é apenas por votos. É por arquitetura de poder. E essa já foi reconfigurada.

Marcos Verlaine. Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP