A HUMANIDADE DE CADA UM

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A humanidade de cada um

João Franzin

Durante algum tempo, acreditei que existisse uma coisa chamada humanidade. Mas já desconfiava, pois Sartre, que eu lia desde adolescente, negava algo como natureza humana. Caso existisse, seríamos como os tigres, ou seja, todos muito iguais.

Em 1979, houve a greve dos jornalistas, da qual participei (com alguns amigos) contrariado, pois não havia unidade, organização e maturidade para enfrentarmos os barões da mídia. Além do que o presidente do Sindicato era fraco e sem voz de comando.

Por que aquela greve me fez descrer da humanidade? Não por que vários colegas furaram a greve, o que é um direito do trabalhador. E sim porque vários deles aceitaram embarcar na Veraneio da PM, entrando pela garagem pra ir trabalhar.

Pensei. Eu e meus amigos estamos no piquete, tomando pancada de polícia, por acatar a decisão da maioria. Já o sujeito que pega carona na viatura da polícia da repressão pra trabalhar contra seus colegas, sinceramente, esse cara não pertence à mesma espécie que eu e outros companheiros.
Passada a greve, voltamos ao quarto andar da Folha, onde trabalhei por mais dois anos e só saí quando quis. Tratei com educação os que furaram a greve pela porta da frente. Mas jamais dirigi palavra aos que sentaram no colo da polícia pra furar o movimento. Os primeiros exerceram um direito. Os segundos foram traidores. E com Calabar não tem acordo…

Minha educação política teve duas fontes: os amigos do Partido Comunista Brasileiro e os companheiros trabalhistas, ligados a Brizola. Os comunistas partem da premissa de que a humanidade existe organicamente, faltando-lhe apenas aplicar um projeto unitário (marxismo-leninismo) e, claro, fuzilar os burgueses recalcitrantes.

Já os trabalhistas pensam diferentemente. Reconhecem a luta de classes, fazem o enfrentamento direto ou indireto e, na medida do possível, buscam governar por meio de pactos. Se o pacto puder ser negociado, tudo bem. Se não, deve imposto pela força política do Estado (caso de Getúlio, que precisou baixar um regime duro – o Estado Novo – pra dar ao povo mínimos direitos trabalhistas e sociais; vale dizer, dignidade humana).

Certa feita, fui cobrir greve numa fábrica de balanças. O dono não pagava há meses e os empregados deram um basta, cruzando os braços. O que o malandro fazia? Dava balança ao empregado, orientando que vendesse e levantasse uns trocos. Uma das operárias adoeceu e procurou um médico famoso (catolicão, maçom, do Rotary etc.). Ela disse que não tinha dinheiro pra pagar a consulta. Ele: – Você trabalha na Arja, não é? Pegue lá duas balanças que eu levo pra minha chácara.

Sinceramente, eu prefiro ser parça de um vira-lata do que estar no mesmo patamar de um lixo humano desses!

João Franzin, jornalista, sangue Ó Positivo.
joaofranzin56@gmail.com

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