Novas tarifas impostas pelos Estados Unidos não encontram justificativa técnica e configuram pressão política inaceitável. Sem abandonar a possibilidade de diálogo, o País deve utilizar os mecanismos de defesa de que dispõe, buscar novos mercados e investir na expansão sustentável de sua economia.
A soberania é um princípio fundamental do direito internacional e condição indispensável para que uma nação possa definir livremente seu próprio destino, conduzir suas políticas públicas e construir seu projeto de desenvolvimento.
Por isso, causa preocupação a decisão do governo dos Estados Unidos de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros. Como é amplamente conhecido, a medida anunciada na madrugada de 16 de julho não tem qualquer respaldo técnico. Segundo dados da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio), entre 2015 e 2024, os Estados Unidos acumularam superávit de aproximadamente US$ 257 bilhões no comércio com o Brasil.
É difícil, portanto, dissociar essa iniciativa de motivações essencialmente políticas. Essa percepção foi reforçada pelas manifestações públicas do secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, que utilizou suas redes sociais para comentar assuntos internos brasileiros e questionar a condução das negociações entre os dois países. Ao fazê-lo, ultrapassou os limites da diplomacia e do respeito que devem orientar as relações entre Estados soberanos.
A resposta do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, foi correta ao classificar essas declarações como ofensivas e inaceitáveis. O chanceler reiterou que o Brasil participou das negociações de boa-fé, mantendo permanentemente abertos os canais diplomáticos, mas não poderia aceitar exigências incompatíveis com sua soberania e com o respeito devido às instituições nacionais.
O Brasil deve responder a esse cenário com serenidade, firmeza e senso estratégico. É necessário manter abertas todas as possibilidades de negociação, utilizando os instrumentos previstos no direito internacional e buscando preservar uma relação comercial construída ao longo de décadas. O diálogo continua sendo o melhor caminho para a solução dos conflitos.
Ao mesmo tempo, o País dispõe de mecanismos legais para proteger seus interesses. A recente Lei da Reciprocidade Econômica oferece respaldo para que o governo brasileiro possa adotar medidas proporcionais diante de barreiras comerciais impostas unilateralmente por outros países.
Paralelamente, torna-se ainda mais urgente ampliar a diversificação de mercados, fortalecer as relações comerciais com outros parceiros, estimular a agregação de valor à produção nacional e ampliar a competitividade da indústria brasileira. Reduzir a dependência de um único mercado é uma estratégia que fortalece a economia e amplia a capacidade do País de enfrentar crises e mudanças no cenário internacional.
Este também deve ser um momento para reafirmar um projeto nacional de desenvolvimento, buscando um ciclo de expansão econômica sustentável, como propõe o projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”. Investir em reindustrialização, infraestrutura, inovação, ciência, tecnologia e engenharia é a melhor resposta de longo prazo a medidas protecionistas ou pressões externas.
Há ainda um princípio que não admite qualquer relativização. As escolhas políticas do Brasil pertencem exclusivamente ao povo brasileiro, exercidas por meio das instituições democráticas e do voto. O respeito à soberania é um dos pilares da convivência entre as nações e condição essencial para a preservação da paz e da cooperação internacional.
Lutemos por um mundo que respeite tais valores.
Murilo Pinheiro. Presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo e da Federação Nacional da categoria – FNE.









