Já se tornou comum para a população da Grande São Paulo ficar às escuras a cada chuva ou ventania, ainda que esses não sejam eventos climáticos extremos como os registrados no ano passado. Por exemplo, na quarta-feira (14/01), as notícias davam conta de cerca de 34 mil imóveis sem energia devido ao temporal que caiu sobre a cidade de São Paulo.
Na mesma data, mereceu destaque na mídia a confissão feita pela Enel São Paulo – distribuidora que atende cerca de 8 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da Grande São Paulo, inclusive a Capital – sobre o apagão registrado em dezembro de 2025, após ventos intensos ocorridos nos dias 9 e 10. Conforme documentos enviados à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), ficaram às escuras 4,4 milhões de imóveis, embora à época a empresa tenha informado metade desse número.
Além disso, também teria havido imprecisão nas declarações de porta-vozes da Enel sobre o esforço para restabelecer as ligações, que chegariam a 1.500 equipes escaladas para o trabalho e que assim se manteriam até a solução do problema que deixou milhões de famílias, empresas e instituições públicas sem energia. Conforme os documentos, embora o número prometido tenha sido atingido, isso se manteve por um período curto, retardando demasiadamente a volta à normalidade.
A má qualidade do serviço prestado pela concessionária, que também está presente no Rio de Janeiro e no Ceará, somando 16 milhões de clientes, já lhe rendou inúmeras multas, aplicadas por órgãos reguladores e de proteção ao consumidor.
Lamentavelmente, a aplicação da punição não significa pagamento. Dos R$ 374 milhões estabelecidos pela Aneel e pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), a Enel segue devendo R$ 345 milhões.
A multa mais recente foi definida pelo Procon-SP em R$ 14 milhões devido às falhas no fornecimento de energia em setembro e dezembro do ano passado. A quitação do valor, contudo, vai depender do desfecho do processo que contempla a defesa apresentada pela concessionária.
Segundo os defensores da privatização de serviços essenciais, a medida traria concorrência, com consequentes queda nas tarifas e elevação da qualidade. Passados quase 30 anos da desestatização de grande parte do setor elétrico em São Paulo, é evidente que só se beneficiaram empresas que passaram a lucrar valendo-se do mercado cativo e da infraestrutura que havia sido construída com dinheiro público. Para os consumidores, antes habituados a trabalho sério e compromissado, ficaram os aumentos acima da inflação, falhas no fornecimento e péssimo atendimento.
É urgente corrigir o rumo dessa situação. Distribuição de energia é serviço essencial e precisa ter qualidade. O Estado de São Paulo, que já garantiu excelência com empresas públicas, não pode ficar à mercê dos interesses de mercado numa área vital à população.
Murilo Pinheiro. Presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo.









