Jaguaré e os limites da privatização da infraestrutura urbana – Ivan Maglio

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A explosão ocorrida nesta semana no bairro do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, durante uma obra vinculada à Sabesp, não pode ser tratada apenas como um acidente operacional isolado. O episódio expõe um problema estrutural mais profundo: os riscos de um modelo de gestão da infraestrutura urbana baseado na fragmentação operacional, em sucessivas terceirizações e no enfraquecimento do controle técnico público.
As imagens da explosão e os relatos divulgados ao longo do dia revelam a gravidade do ocorrido. Mas o caso também recoloca no centro do debate os impactos do atual modelo de privatização e financeirização dos serviços urbanos essenciais.

Sistemas de saneamento não funcionam como operações comuns de mercado. Água, esgoto, drenagem e redes subterrâneas constituem infraestruturas críticas de segurança urbana, saúde pública e resiliência climática. Elas operam sobre estruturas altamente complexas e interdependentes, nas quais qualquer falha pode desencadear efeitos em cadeia envolvendo gás, energia, mobilidade e abastecimento.

Esse tipo de infraestrutura exige planejamento integrado, forte capacidade técnica pública, fiscalização rigorosa, equipes altamente qualificadas, supervisão permanente e visão de longo prazo.
O problema é que o atual modelo de gestão vem progressivamente substituindo essa lógica técnica por uma lógica predominantemente financeira e operacional.
A privatização amplia pressões por redução de custos, aceleração de cronogramas, terceirização em cadeia, fragmentação de responsabilidades e metas de rentabilidade. Em muitos casos, o controle técnico direto torna-se secundário diante da lógica da produtividade e da eficiência financeira de curto prazo.
O acidente do Jaguaré expõe exatamente os riscos desse processo.
O subsolo de São Paulo tornou-se uma das infraestruturas mais complexas da América Latina. Intervenções sobre redes enterradas exigem compatibilização precisa entre sistemas antigos, novos equipamentos e múltiplas concessionárias atuando simultaneamente no território. Sem coordenação técnica robusta, os riscos aumentam exponencialmente.
O debate não pode se limitar à apuração imediata das responsabilidades pelo acidente. A questão central é discutir até que ponto infraestruturas urbanas críticas podem ser submetidas prioritariamente à lógica financeira sem comprometer a segurança operacional, a capacidade pública de fiscalização e a proteção da população.
A modernização da infraestrutura urbana é necessária, mas modernizar não pode significar precarizar o controle técnico, pulverizar responsabilidades e enfraquecer a capacidade pública de coordenação territorial.
O episódio do Jaguaré funciona como um alerta grave. Grandes cidades contemporâneas dependem de sistemas urbanos invisíveis e extremamente delicados. Quando saneamento, energia, gás e drenagem passam a operar sob forte fragmentação institucional e sob uma lógica financeira de curto prazo, toda a cidade se torna mais vulnerável.
*Ivan Carlos Maglio é engenheiro civil, doutor em Saúde Pública pela USP e pós-doutor em Adaptação Climática e Planejamento Urbano (IEA-USP/FAU-USP). Foi diretor de Planejamento Urbano da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo e coordenador do Plano Diretor Estratégico de 2002 e da Lei de Uso e Ocupação do Solo de 2004.

Ivan Maglio. Engenheiro Civil, Consultor em Planejamento Ambiental – Urbano e Adaptação Climática. Mestre e Dr. em Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.