Sindcine denuncia acidentes nos sets
O ditado “por fora bela viola, por dentro pão bolorento” cai como uma luva no setor brasileiro do audiovisual. As condições de trabalho são quase sempre ruins e tem havido alta ocorrência de acidentes de trabalho, inclusive com mortes.
A última das vítimas foi Luiz Fernando Silva, que trabalhava na parte elétrica de um set de filmagens no Rio de Janeiro, contratado pela produtora “Afroreggae”, conforme noticiou o jornal O Globo, do dia 14.
A internet define a empresa: “A AfroReggae Audiovisual (ex-Afra Audiovisual) é uma produtora de conteúdo para TV, cinema e streaming, fundada em 2016 pelo ativista cultural José Júnior. Nascida como um desdobramento da renomada ONG Grupo Cultural AfroReggae, a empresa tem como principal propósito criar impacto social, diversidade nas telas e dar protagonismo a artistas negros, de favelas e periferias”.
Precário – O trabalho da produtora contratada gravava cenas para uma série da Disney. Mas, atenção, Luiz Fernando trabalhava no telhado de um prédio da UERJ (Universidade) a 12 metros de altitude e sem qualquer Equipamento de Proteção Individual – EPI – como manda a Lei, as normas (NRs) e a própria Convenção Coletiva de Trabalho.
As denúncias têm chegado ao SindCine, em São Paulo, cuja base não abrange o Rio de Janeiro. A presidente Sônia Santana está revoltada. Ela diz: “O companheiro estava sem EPI e até ser atendido por uma ambulância ficou estatelado no chão, gerando medo e pavor a seus colegas de trabalho”.
A dirigente tem se ocupado com a questão da segurança nos sets. Sônia Santana também comenta que, a fim de reduzir custos, “muitas produtoras alugam galpões precários, com os trabalhadores tendo que conviver com a sujeira e os ratos”.
O que a tela da TV ou cinema mostra, afirma a sindicalista, “é uma realidade totalmente incompatível com as condições reais dos técnicos, atores e demais trabalhadores num set”. Sonia critica a omissão do Ministério do Trabalho e também da Ancine. Ela diz: “O Sindicato já levou denúncias e cobrou fiscalização nos sets. Mas até agora ficamos sem resposta”.
No mesmo set, no Rio de Janeiro, tempos atrás, um diretor infartou e veio a falecer. Sonia Santana conta que as jornadas de trabalho têm sido muito longas (“querem que o profissional produza muito mais em menos tempo”), o que para ela configura assédio moral, batendo de frente com o que estabelece a NR-1, Norma Regulamentadora recentemente reformulada.
Convenção – O trabalho no audiovisual precisa também cumprir a Convenção Coletiva de Trabalho assinada entre Sindicato e entidade patronal. A CCT reforça a necessidade do uso de EPIs, de haver ambientes de trabalho asseados, de estacionar uma ambulância perto do local das filmagens, de desligar a alta tensão.
Segundo a presidente do Sindcine, a busca do lucro rápido faz a produção, muitas vezes, descumprir normas elementares. “As produtoras querem acelerar o trabalho e impõem jornadas estafantes. E o empresariado do setor só visa lucrar rapidamente”, ela critica.
Muitos técnicos são pressionados a trabalhar em ritmo cada vez mais acelerado, sem reclamar da falta dos equipamentos ou deixando passar batido a ausência dos EPIs necessários. Sonia alerta: “Tem companheiro que teme entrar em lista negra e não ser mais chamado pra trabalhar em pequenas ou grandes produções”.
Todo mundo quer ver um bom filme, uma propaganda criativa ou uma série interessante. Mas o telespectador mal sabe das condições em que aquela produção foi tocada. Sonia Santana lamenta, critica e conclui: “Lamentavelmente, o audiovisual está matando trabalhadores.”
MAIS – Sindcine – www.sindcine.org.br – com Sônia Santana, Rosana ou dr. Marcelo de Campos Mendes Pereira: (11) 99762.0917. Sede: 11 – 5539.0955.




