Martorelli, do Sindicato dos Atletas, avalia Copa
Como um ex-jogador profissional de time grande está vendo a atual Copa do Mundo de Futebol? E, se ele for, além de ex-goleiro, um dirigente sindical, qual sua visão acerca do megacampeonato organizado pela Fifa?
Pois bem. A Agência Sindical procurou Rinaldo Martorelli, que preside o Sindicato dos Atletas do Estado de São Paulo, integra entidades esportivas profissionais, tem doutorado a respeito do tema futebol e dá aulas sobre “Direitos dos Atletas” na CBF Academy.
Principais trechos:
Globalização – “Ao ampliar o número de equipes na Copa a Fifa dá um caráter verdadeiramente globalizado ao campeonato. Claro que há nisso, também, interesse comercial, até porque, em termos de marketing em larga escala, a mídia do futebol ainda é a mais barata – a cada dólar investido, o retorno é de seis dólares. Mais equipes, mais arrecadação.”
Organização – “As entidades representativas dos atletas estão se unindo, até porque não tem como discutir e negociar individualmente com a Fifa. No dia 23 de abril, nosso Sindicato, mais a entidade espanhola, mexicana e suíça fundaram em Madrid a Associação Internacional de Futebolistas. E temos uma lista de mais 25 entidades que desejam fazer parte da Associação”. Ele é vice dessa entidade.
Desafios – “Penso que temos dois desafios a enfrentar. Um é como não espantar a entrada de recursos financeiros nas competições e clubes. E o outro é de que forma evitar que o volume de dinheiro não se sobreponha à integridade profissional, física e à saúde dos atletas”.
Dinheiro – “O interesse econômico não pode constranger a liberdade do trabalho dos jogadores. Mas, por outro lado, precisamos fazer com que esses recursos garantam os contratos, pra que o futebol não entre numa rota de desorganização”.
Negociação – “Nossas entidades procuram acumular forças pra assim melhor negociar com a Fifa e outras organizações, como a Uefa. Tomamos o cuidado de negociar, visando preservar os direitos dos atletas, sem colocar em risco seus empregos. Em 23 de julho do ano passado, tivemos uma reunião com a Fifa, que, pela primeira vez na história, emitiu um comunicado expressando preocupação com o pagamento em dia dos atletas. Mas pagamento em dia ainda é uma falácia”.
Pós-Copa – “As lideranças da categoria trabalham para que, terminada a Copa do Mundo, a Fifa estabeleça diretrizes e portarias que passem a ter eficácia na prática e força de lei. Na Europa, avanços que a sociedade conseguiu acabam agregados às conquistas sindicais. Aqui, isso não ocorre. Primeiro, vêm as conquistas sindicais”.
Congraçamento – “A Copa do Mundo é um momento de congraçamento mundial, de povos, culturas e línguas diferentes. Esse é um aspecto altamente positivo da competição”.
Seleção – “Enquanto brasileiro, vou torcer até o último minuto pelo nosso time. Mas penso que terminada a Copa do Mundo precisamos iniciar uma reorganização ampla, profunda dos nossos clubes, campeonatos, enfim, do nosso futebol. Hoje, muitos clubes entram em recuperação judicial, esperando uma nova lei que contorne a situação. É um ambiente de lobby”.
Celeiro – “O Brasil é ainda o País que mais exporta jogadores. Porém, nosso futebol profissional conta hoje com 154 estrangeiros jogando na Primeira Divisão. Não considero normal, embora, por exemplo, na Seleção do Marrocos, 19, dos 26 convocados, sejam dependentes de pais marroquinos”.
Perfil – “Décadas depois de deixar o futebol profissional, ainda me considero um aprendiz, curioso e insatisfeito. Procuro ter uma visão geral e atuar, no sindicalismo, com essa perspectiva, porque, como dizia Nélson Rodrigues, o pior cego é aquele que só enxerga a bola”.




