Não somos apenas números

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A vida é luta. Da concepção à morte, nossa existência é uma corrida de obstáculos. Contra isso, não podemos fazer muito. Mas devemos fazer.

Devemos ser persistentes, ter consciência das nossas limitações e, exatamente por isso, devemos reforçar nossa consciência coletiva e solidária.

Segunda e terça, o Sindicato esteve nas duas unidades da Soluções Usiminas entregando um boletim em memória do nosso ex-diretor Madeira (Adriano Alves de Oliveira), funcionário da empresa, recentemente falecido.

Fizemos questão de ir à fábrica mostrar a seus colegas o apreço do Sindicato por aquele operário consciente e amigo dos amigos. O mundo costuma homenagear as grandes figuras. Mas quem homenageia o homem do povo, a imensa maioria?

Numa das unidades trabalha seu único filho, um garoto simples, trabalhador e admirador do pai. Chamado de “Madeirinha” pelos colegas, temos certeza de que encontrará forças pra superar a dor e se espelhar no exemplo de bom homem que foi seu pai.

O sindicalismo é um instrumento de lutas. Mas, antes ainda de ser assim, o Sindicato é um órgão de solidariedade. Lá nos primórdios, quando nem Sindicato havia, existiam as Associações de Mútuo Socorro, criadas justamente pra um ajudar o outro na hora do aperto.

Muitos dos que me leem já ouviram falar nas “Ligas Camponesas”. Era um movimento de rurais do Nordeste, liderado pelo advogado trabalhista Francisco Julião. A ditadura reprimiu as “Ligas”, logo carimbadas como comunistas. Mas poucos sabem que a intenção original era apenas juntar dinheiro e comprar caixão pro trabalhador não ser enterrado embrulhado em lençol.

Os Sindicatos são formados por pessoas simples. Muitos de nós somos migrantes, que chegaram à cidade grande só trazendo a cara e a coragem. Esses prédios, viadutos, avenidas, fábricas, escolas, hospitais, quem os construiu? Foram esses homens simples. Quem faz girar a roda dessa estrutura toda? As mulheres e os homens do povo.

O trabalhador não é uma rês marcada no meio do rebanho. O trabalhador pensa, tem planos, faz projetos, sonha, forma família e trabalha duro pra que sua vida seja melhor, e que seus filhos não precisem passar pelo que ele passou.

Quando aqui chegou, vindo do Ceará, o companheiro Madeira repetiu a trajetória de milhões de anônimos deste País. É essa gente boa e anônima que precisa ser valorizada, ter emprego, estudar, receber saúde de qualidade e bons serviços públicos, trabalhar em ambiente saudável, usufruir do lazer, ter acesso aos bens da cultura e ver seus direitos respeitados.

Eu, quando vim de Vertentes, Pernambuco, pra Guarulhos, buscava uma vida melhor. E consegui. Mas não estou satisfeito. Satisfeito estarei no dia em que todo trabalhador puder dizer: valeu lutar e trabalhar duro, pois fui valorizado, reconhecido e melhorei de vida.

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