País que exaure sua juventude condena o próprio futuro – Marcos Verlaine

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Trabalhar demais virou obstáculo ao desenvolvimento, revela estudo do Dieese1. E isso lembra Millôr Fernandes2 (1923-2012), nome artístico de Milton Viola Fernandes, que foi desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro que tinha frase lapidar sobre o trabalho exaustivo. Ele dizia, fazendo troça: “quem se mata de trabalhar, merece mesmo é morrer”.

E o novo boletim Emprego em Pauta, de maio, do Dieese, produz e traduz essa máxima, com dado devastador para a velha lógica brasileira da superexploração do trabalho: reduzir a jornada pode permitir que até 425 mil jovens conciliem emprego formal e estudo.

A conclusão possui enorme significado econômico, social e político. Porque desmonta uma das principais bases do discurso conservador e neoliberal sobre o trabalho no Brasil: a ideia de que jornadas extensas seriam sinônimo de produtividade, mérito e crescimento econômico.

Os dados mostram exatamente o contrário. No Brasil real, trabalhar mais frequentemente significa estudar menos, qualificar-se menos, ganhar menos e permanecer preso aos setores mais precarizados da economia.

O problema deixa então de ser apenas trabalhista. Torna-se problema estrutural de desenvolvimento nacional.

Economia do cansaço

O levantamento revela que a jornada média dos trabalhadores celetistas brasileiros alcançou 41 horas e 32 minutos semanais em 2024. Mais grave: 75% dos vínculos formais estavam acima das 40 horas semanais. Ao todo, são 36,6 milhões de trabalhadores submetidos a jornadas extensas.

Nos setores mais precarizados, os números são ainda mais brutais. Na agropecuária, 94% dos vínculos ultrapassam 40 horas semanais. Na construção civil, 93%. No comércio, 91%.

É justamente nesses segmentos que predominam baixos salários, alta rotatividade e intensificação permanente do trabalho exaustivo.

A escala 6×1 aparece como expressão concreta dessa lógica. Cerca de 15 milhões de trabalhadores formais submetidos a jornadas de 44 horas atuam nesse regime de 6 dias de trabalho para apenas 1 de descanso. O resultado é uma sociedade organizada em torno da exaustão.

Trabalha mais, ganha menos

Talvez o dado mais simbólico do estudo seja aquele que implode um dos principais argumentos do empresariado: o de que jornadas maiores significariam maiores rendimentos.

Segundo o Dieese, trabalhadores com jornada de exatamente 40 horas semanais recebiam, em média, R$ 5.555 por mês em 2024. Já os submetidos a jornadas entre 41 e 44 horas recebiam apenas R$ 2.560. Ou seja: quem trabalhava 40 horas ganhava, em média, 117% mais.

A realidade brasileira revela paradoxo perverso: os trabalhadores submetidos às jornadas mais longas frequentemente ocupam os postos menos valorizados da economia.

Não se trata apenas de excesso de trabalho. Trata-se de excesso de trabalho mal remunerado.

Tempo roubado da juventude

O estudo alcança dimensão mais dramática ao mostrar o impacto das jornadas longas sobre os jovens.

Entre trabalhadores formais de até 29 anos com jornadas inferiores a 36 horas, metade conseguia estudar. Entre os submetidos exatamente a 40 horas semanais, esse percentual despencava para 22,3%.

Nas jornadas entre 41 e 44 horas, apenas 17,1% conseguiam conciliar trabalho e estudo. Acima de 48 horas semanais, o índice caía para 9,7%.

Entre jovens de 18 a 24 anos submetidos a jornadas de 41 a 44 horas, apenas 20% estudavam. E 19% sequer haviam concluído o ensino médio.

Isso significa que milhões de jovens brasileiros não estão apenas cansados. Estão sendo afastados das possibilidades de qualificação, mobilidade social e construção de futuro melhor.

O País desperdiça inteligência, potencial produtivo e formação humana em nome de modelo econômico baseado em longas jornadas e baixos salários.

Reduzir jornada não é atraso é desenvolvimento

O debate sobre redução da jornada costuma ser contaminado por previsões catastrofistas recorrentes. Foi assim na redução de 48 para 44 horas na Constituição de 1988. E voltou a ocorrer agora no debate sobre o fim da escala 6×1 e a jornada de 40 horas.

O Dieese relembra que a redução promovida pela Constituinte não destruiu empregos nem arruinou a economia brasileira. Ao contrário.

Porque o desenvolvimento econômico moderno não depende simplesmente de ampliar o tempo de trabalho bruto. Depende de produtividade, qualificação, tecnologia, inovação e melhores condições de vida.

Sociedades que submetem sua juventude à exaustão permanente tendem a formar trabalhadores menos qualificados, menos criativos e com menor capacidade de adaptação tecnológica.

Nesse sentido, reduzir jornada não significa apenas ampliar descanso. Significa ampliar o tempo social disponível para educação, formação técnica, convivência familiar, saúde mental e desenvolvimento humano.

Centro da disputa

O estudo do Dieese ajuda a recolocar o debate público em termos concretos.

A discussão sobre jornada não é mero conflito entre empresários e sindicatos. É a disputa sobre o modelo de País que o Brasil deseja construir.

Modelo baseado em baixos salários, longas jornadas e exaustão permanente tende a reproduzir desigualdade, baixa produtividade e estagnação social.

O modelo que amplia tempo livre, acesso à educação e qualificação profissional cria condições mais sólidas para crescimento econômico sustentável.

No fundo, a pergunta central é simples: o trabalho deve consumir integralmente a vida das pessoas ou deve permitir que elas também estudem, convivam, descansem e construam futuro melhor?

Os dados do Dieese sugerem que a resposta talvez seja menos ideológica do que muitos imaginam. E muito mais objetiva do ponto de vista econômico e social.

Marcos Verlaine. Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP.