Quando a lógica do lucro ameaça a vida e a engenharia – Murilo Pinheiro

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A explosão ocorrida no dia 11 de maio no Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, durante obra da Sabesp, deixou um rastro de destruição, vítimas fatais, feridos, famílias desalojadas e uma cidade perplexa diante da violência da tragédia. O episódio exige apuração rigorosa, transparente e célere, como defendeu o SEESP em nota pública.

Contudo, não se trata apenas de identificar causas imediatas ou responsabilidades pontuais, mas de compreender o contexto mais amplo em que acidentes dessa magnitude passam a ocorrer. É impossível ignorar uma questão central: o progressivo esvaziamento da capacidade técnica e operacional de uma empresa estratégica ao desenvolvimento paulista e nacional.

O saneamento básico é uma atividade de alta complexidade. Não se resume à execução de obras ou ao cumprimento de metas financeiras. Envolve planejamento de longo prazo, engenharia qualificada, conhecimento acumulado, gestão de riscos, domínio territorial das redes subterrâneas e protocolos rigorosos de segurança. É um setor no qual experiência prática salva vidas.

Nos últimos anos, porém, especialmente após o processo de privatização da Sabesp, levado a cabo em julho de 2024, quando o serviço foi entregue a uma empresa sem experiência no setor. Aparentemente, a partir daí, consolidou-se uma lógica de gestão voltada prioritariamente à maximização de resultados financeiros, com redução acelerada de quadros próprios, programas de desligamento incentivado, terceirizações e perda de profissionais altamente experientes. Em nome da eficiência medida por indicadores de mercado, desmontam-se estruturas técnicas construídas ao longo de décadas.

Quando profissionais experientes deixam a empresa sem reposição adequada ou sem tempo para transferência de conhecimento, cria-se um vazio técnico extremamente perigoso. Jovens trabalhadores e equipes terceirizadas passam a atuar em ambientes de alta complexidade sem o suporte necessário de estruturas consolidadas de formação, supervisão e acompanhamento operacional.

Nesse contexto, é fundamental lembrar que responsabilidade técnica não é mera exigência burocrática; pressupõe condições efetivas de trabalho, autonomia profissional, equipes em número suficiente e capacitadas, planejamento adequado e ambiente organizacional comprometido com segurança e qualidade.

A engenharia não pode ser reduzida a assinatura em documento ou etapa protocolar de contratos. Seu papel é justamente assegurar que projetos, obras e operações sejam executadas com segurança, rigor técnico e proteção à vida humana.

A tragédia do Jaguaré precisa servir como alerta profundo à sociedade. Serviços essenciais não podem ser submetidos exclusivamente à lógica do lucro de curto prazo. Água, saneamento e infraestrutura urbana são áreas estratégicas, diretamente relacionadas à saúde pública, ao meio ambiente, à segurança das cidades e à qualidade de vida da população.

A discussão sobre os efeitos da privatização da Sabesp, portanto, ultrapassa a esfera ideológica. Trata-se de debater quais valores devem orientar a gestão de setores vitais ao interesse coletivo.

Nossa solidariedade às vítimas, seus familiares e todos os trabalhadores afetados nessa tragédia.

Murilo Pinheiro. Presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo e da Federação Nacional da categoria – FNE.