Brasil precisa de uma imprensa forte – Carolina Ruy

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Não é novidade que a Folha de São Paulo busca se colocar como uma instituição “em defesa da democracia”. Mas episódios de cumplicidade entre o jornal e a ditadura também já são conhecidos publicamente. É preciso jogar luz não apenas neste histórico de colaboracionismo e na mudança de posição, como também em qual democracia o jornal defende. E pensar em para qual modelo de sociedade caminhamos.

O assunto sobre a relação da Folha com a ditadura militar voltou à tona após pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que investigam a relação de colaboracionismo entre empresas e a ditadura, apontarem o jornal entre uma dessas empresas.

O próprio jornal publicou, sem muito alarde, um grande artigo chamado “Documento aborda trajetória do Grupo Folha na Ditadura”, no jornal impresso de 2 de julho de 2023.

Dois dias depois, em 4 de julho, a Agência Pública afirmou em artigo que “Documentos indicam que aliança da Folha com a ditadura foi mais forte do que jornal admite”, retomando a pesquisa da historiadora Beatriz Kushnir, autora do livro “Cães de guarda, jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988”, que mostra a relação da Folha com o regime.

No dia 7 de agosto, tive a honra de participar, com a Beatriz e o Ivan Seixas, jornalista que sofreu na pele os horrores da ditadura e que hoje luta por justiça e reparação, de um debate promovido pelo Centro de Estudos Barão de Itararé, com o nome: “Colaboracionismo e Ditadura; Responsabilização e o caso Folha”.

No último domingo, 20 de agosto, a Folha publicou no jornal impresso outro artigo que reafirma sua defesa da democracia, chamado “O pioneirismo da Folha nas Diretas”.

Cabe, portanto, prosseguir neste debate.

Impeachment da Dilma Rousseff deflagrou novo período de retrocesso

Como sabemos, não só a Folha, mas a Globo, o Estadão, a grande imprensa em geral, defenderam o impeachment da Dilma Rousseff, que foi uma nova forma de golpe, deflagrando um novo período de retrocesso a exemplo da ditadura militar, mas com novos métodos, com a imposição de reformas liberais de forma apressada e sem um debate social. Reformas que prejudicaram muito os movimentos socias, o movimento sindical e, principalmente, os trabalhadores devido a ampla retirada de direitos.

Isso mostra que a atual e supostamente enfática defesa da democracia manifestada pela imprensa é relativa, uma vez que se refere a um período histórico que já está superado, o regime militar de 1964, e não a governos recentes, como o de Dilma Rousseff, ou instituições democráticas, como a representação sindical.

Dominação dos EUA continuou mesmo após redemocratização

Mais do que isso, se refere a um modelo superado apenas na forma. Na forma de impor um regime à força. Mas que, no quadro maior, mesmo após a redemocratização de 1985, manteve o mesmo tipo de dominação econômica e cultural atrelada aos Estados Unidos, que sustentou o golpe militar e a implementação do regime, conforme mostra farta documentação.

Em 1985 a ditadura militar brasileira já não cabia em um mundo que começava a exigir um modelo mais aberto, liberal e, sobretudo, com um estado menor. E a redemocratização, embora tenha trazido liberdade política, veio concomitantemente com um forte modelo de terceirização e de desemprego que levou a um empobrecimento da classe trabalhadora, enfraquecimento do movimento sindical e dos partidos e movimentos de esquerda.

Esse contexto não contrasta com a ditadura, mas faz parte do mesmo projeto. E o perfil colonizado de grande parte da nossa imprensa, que hoje se levanta para falar que é a favor da democracia, que condena a ditadura, que se desculpa por ter apoiado a ditadura, mostra bem essa relação.

Grande imprensa fecha com Bolsonaro com relação a direitos trabalhistas

Hoje a mesma imprensa que apoiou o golpe de 64 e que apoiou o impeachment da Dilma, continua com um discurso contra os direitos trabalhistas e políticas sociais, reproduzindo, inclusive, narrativas bolsonaristas declaradamente contrárias aos trabalhadores. Se por um lado condenam o perfil autoritário e violento, que é a expressão mais crua do regime militar, e que foi reverenciado por Jair Bolsonaro quando presidente, por outro, concordam tanto com o regime de 64, quanto com o bolsonarismo no que diz respeito à retirada de direitos trabalhistas e políticas sociais.

Isso ficou muito evidente nesta segunda-feira, 21/08/2023, quando a jornalista Miriam Leitão, que foi vítima da violência da ditadura, disse para a rádio CBN que uma democracia “não precisa de sindicatos” porque, segundo ela, “os sindicatos não são representativos”.

É óbvio que se trata de uma fake news, uma vez que o que o movimento sindical reivindica hoje é uma sustentação para sindicatos representativos quando negociam salários e convenções coletivas. Ela fala em “modernizar” as relações de trabalho. Mas esse “modernizar” nada mais é que retirar direitos para facilitar a vida do empregador e obrigar o trabalhador a se sujeitar a condições indignas para se manter no mercado.

Vivemos o mundo idealizado pelos EUA no Pós-guerra

Esta situação que vivemos, de desvalorização do trabalhador e dos sindicatos, é o modelo que foi idealizado pelo governo americano no Pós-guerra, implementado à base da repressão, violência e censura durante as ditaduras na América Latina, e acentuado com o advento do Consenso de Washington, em 1990, e o fim da União Soviética, em 1991, que era um contrapeso para o capitalismo selvagem e, sobretudo, uma referência para a esquerda (tanto que influenciou a socialdemocracia na Europa).

No horizonte deste modelo, se ele seguir seu curso, a própria imprensa que o defende está em risco. E, neste ponto, acrescento ao debate um tema que levantei no programa do dia 7 de agosto, transmitido pelo Barão de Itararé: a emergência das redes sociais como a grande evolução no que diz respeito a colaboracionismo.

O perigo das redes sociais

Quando falamos sobre imprensa, colaboracionismo, e empresas de comunicação trabalhando para um projeto político, não podemos deixar de mencionar o poder das redes sociais.

Desde a segunda década deste século o jornalista e ativista Julian Assange tem exposto claramente o sistema de controle político que as empresas que dominam a internet possuem. No prefácio à edição brasileira de seu livro “Quando o Google encontrou o Wikileaks” , por exemplo, Assange diz que “O Google exemplifica os terríveis perigos da internet corporativa. Desde muito cedo, seus fundadores perceberam que o processamento de informações em grande escala os colocaria no centro de tudo”; e que: “Os brasileiros devem se conscientizar de que, quando usam os ‘serviços’ do Google, estão sendo aliciados para entrar em um relacionamento com uma mega corporação estrangeira global muitos milhões de vezes mais poderosa do que eles e sujeita a poucos mecanismos de prestação de contas”. Isso foi escrito em 2014. De lá para cá a situação piorou muito com o crescimento da Meta, dona do Facebook, e com a disseminação dos smartphones.

Assange conta no livro como as redes sociais manipularam as mega manifestações que varreram o Oriente Médio e o Norte da África, em uma série de eventos que se tornaram conhecidos como “Primavera Árabe”. E isso se repetiu no Brasil, em 2013, na Ucrânia, em 2014, no Chile, em 2019, e em diversos outros lugares do mundo.

As redes sociais, como novas empresas de comunicação, atravessam qualquer controle social, chegam ao público independentemente da mediação de empresas nacionais ou de governos, e conseguem sem esforço manipular eleições e movimentos políticos. Elas são, neste sentido, uma expressão perfeita do ultraliberalismo selvagem.

Valorizar a imprensa

Interessa à sociedade saber o que foi a ditadura militar, seus métodos violentos e autoritários, a prática extensiva de perseguição, repressão, censura e torturas. Interessa saber quais empresas privadas colaboraram com o regime e como elas se beneficiaram com isso. O povo brasileiro, em sua maioria, não conhece a fundo essa história. E a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, é prova disso.

É também de interesse social que algumas empresas que apoiaram a ditadura, em todo o período ou em alguns momentos, tenham reconhecido o erro e revisto suas posições. Isso mostra que a sociedade não deve aceitar um passado de cumplicidade com um regime abusivo. Mostra que existem valores que devem prevalecer para o avanço do país.

Acima de tudo é importante ter o entendimento que os interesses políticos e econômicos por trás do regime militar de 1964, permaneceram mesmo após a abertura democrática de 1985 e que ainda sofremos com problemas advindos do acirramento do neoliberalismo.

A resistência a esse modelo contempla fortalecer as instituições e a soberania nacional. Neste sentido, as críticas que devem ser feitas à imprensa devem apontar para um jornalismo mais sério, confiável e democrático de fato. E não para sua destruição. Devemos valorizar a imprensa livre, sua história, seu papel e trabalhar para ampliá-la e melhorá-la de acordo com os interesses do povo brasileiro e com base naquilo que prevê a nossa Constituição.

Porque um país desenvolvido precisa de uma imprensa forte, livre, questionadora e que respeite o Estado de Direito.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical